O atual debate econômico, no Brasil, tem apresentado diversas
críticas aos governos Lula e Dilma. Até recentemente, estas se centravam
nas dificuldades da conjuntura econômica. Com o advento dos protestos
desde junho, André Lara Rezende lançou a tese de que estes representam a
manifestação de um “mal-estar contemporâneo” em relação ao modelo
nacional-desenvolvimentista supostamente adotado a partir de 2003.
Apesar de incorreta, ela abre a possibilidade de discussão da trajetória
e os desafios que a economia enfrenta no curto e médio prazos.
Comecemos com as opções do governo Lula. Sem abrir mão do tripé
macroeconômico instituído nos anos anteriores, marcado pela meta de
inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal, uma visão de longo
prazo norteou a gestão econômica do País, promovendo o desenvolvimento
por meio da inclusão e redução das desigualdades. Primeiramente
apostou-se num processo acelerado de valorização do salário-mínimo real
médio, que cresceu mais de 70% entre 2003 e 2012 - quase quatro vezes
mais que na década anterior. Este aumento foi acompanhado pela a
elevação das transferências de renda, com destaque para o Bolsa Família,
cujo número de famílias beneficiadas saltou de 3,2 milhões para mais de
13,7 milhões, com mais de 20 bilhões de reais desembolsados em 2012 -
quase quatro vezes os valores em 2002, em termos reais.
O governo Dilma aprofundou e aperfeiçoou os mecanismos de
transferência com o “Brasil sem Miséria” e o “Brasil Carinhoso”.
Aumentou a coordenação de diversos programas sociais dos vários
ministérios e instituiu a “busca ativa”, que se propõe a localizar
cerca de 16 milhões de brasileiros em situação de extrema pobreza para
oferecer-lhes apoio social e acesso à cidadania, por meio da oferta de
serviços públicos, programas de transferência e oportunidade de inclusão
produtiva.
Os resultados sociais destas politicas estão ai: foi possível não apenas criar
mais de 14 milhões de empregos formais e reduzir o desemprego a 6%,
como promover a queda acelerada da desigualdade social e regional.
Desde 2003, cerca de 50 milhões de pessoas ingressam na classe média, um
avanço expressivo na formação de um mercado interno de consumo de
massas.
Evidentemente, um processo de inclusão socioeconômico desta
envergadura gera enormes desafios em uma economia em que a
infraestrutura e a estrutura produtiva foram moldadas a um país
profundamente desigual. Há inúmeras manifestações deste fenômeno, mas
podemos citar duas: com o aumento do emprego, um maior número de pessoas
passou a se locomover pelas cidades brasileiras. Ao mesmo tempo, com o
aumento da renda e, a partir daí, da oferta de crédito, a venda de
automóveis disparou. Escancarou-se o já conhecido déficit do transporte
público de massas nas grandes cidades brasileiras. Da mesma forma, o
aumento de renda e a forte interiorização do desenvolvimento brasileiro
contribuíram para o aumento da demanda de voos. Em pouco tempo,
aeroportos, antes com baixa utilização passaram a se ver superlotados. O
número de passageiros quase triplicou entre 2002 e 2012, passando de 36
milhões para 100 milhões por ano.
Os desafios diante da consolidação do processo de inclusão
socioeconômica são significativos, dado o grau de abertura comercial e
financeira brasileira, a intensidade da competição internacional e o
período relativamente curto de redução da pobreza e desigualdade. Temos
de lidar, com senso de urgência, com o tema da competitividade e
produtividade, que se associam a uma multiplicidade de frentes: a
infraestrutura e logística, a matriz energética, a qualidade do capital
humano, a capacidade de inovação e, evidentemente, o ambiente de
negócios. Temos de distribuir, incluir, investir, ampliar a
competitividade e melhorar a qualidade dos serviços públicos quase
simultaneamente.
Dentre estes desafios, talvez o maior seja o promover a
expansão do investimento privado. Depois de décadas de incerteza e juros
elevados, diante da continuidade da crise externa, nosso empresariado
exibe uma extraordinária aversão ao risco paralisando investimentos
rapidamente quando há sinais negativos, mas aguardando a continuidade de
sinais positivos para retomar seus projetos. Para fazer renascer o
“animal spirit” empresarial, o governo tem duas grandes tarefas que
devem ser encaradas simultaneamente: garantir a expansão não
inflacionária da demanda agregada, manter a trajetória de redução dos
juros e sustentar o câmbio competitivo; e, principalmente, promover
parcerias com investidores privados em grandes projetos.
No que tange à primeira tarefa (de administração
macroeconômica), sabe-se que o desafio é grande – mas o debate econômico
atual exagera na avaliação sobre as dificuldades. Apesar do enorme
choque gerado pelos desdobramentos da crise de 2008, conseguimos ter
razoável desempenho macroeconômico, em parte devido às políticas de
estímulo à demanda agregada e de garantia da oferta de crédito. Diante
da forte aceleração do crescimento e da aparente melhoria do cenário
internacional, a partir de meados de 2010, tais medidas passaram a ser
progressivamente desativadas. Infelizmente, o efeito da retirada de
estímulos se somou à retomada da crise internacional iniciada com as
medidas de ajustamento dos países europeus em resposta à sua crise de
dívida soberana. A economia brasileira enfrenta, então, novo período de
desaceleração, resultando em crescimento mais baixo.
Mesmo diante desse quadro de instabilidade internacional
prolongada, nossos graus de liberdade nos valeram para manter políticas
que sustentaram taxas de desemprego em queda e a criação líquida de
empregos formais O superávit comercial diminuiu, até transformar-se em
déficit, nos primeiros meses de 2013, o que preocupa. Mas há margem de
manobra para lidar com essa situação, pois temos 370 bilhões de dólares
de reserva. A inflação, medida pelo IPCA, mantem-se próxima ao teto do
sistema de metas (6,5%) e está, agora, em queda. Reservas e inflação
controlada têm permitido a gestão da desvalorização cambial, fundamental
para a melhoria da balança comercial.
No que toca à segunda tarefa, as iniciativas parecem estar corretas:
no PAC, no Pré-sal e no MCMV, as novas oportunidades são organizadas
pelo governo e tem mobilizado muitas empresas. Uma iniciativa recente, o
Programa de Infraestrutura Logística, calculado em 80 bilhões de reais
para os próximos cinco anos, e mais de 50 bilhões nos anos posteriores,
bem como o recém-anunciado Programa Nacional de Mobilidade, estimado em
50 bilhões de reais, representarão um novo salto nos investimentos em
infraestrutura nos próximos anos.
Para todos esses programas, contudo, haverá grande demanda de
financiamento, ainda não disponível, na escala e nas condições
adequadas, no mercado brasileiro e internacional. Nesse contexto, não há
dúvidas, os bancos públicos – o BNDES especialmente - continuarão a
ser uma peça fundamental desta estratégia. Mas aqui também concentram-se
criticas. Apoiam-se no argumento de que haverá descontrole da dívida
pública, seja por efeito dos novos aportes ou das despesas de
equalização.
Essa abordagem, contudo, não pode dar margem a pânico. Primeiro, não
se sustenta nos dados. A dívida bruta elevou-se desde o início da crise,
mas permanece estabilizada em torno dos 60% do PIB, um resultado fiscal
extraordinário quando comparado internacionalmente. Ademais, na medida
em que os grandes projetos entrarem em execução, os efeitos sobre a
renda fortalecerão as finanças públicas. De qualquer modo, ainda que a
preocupação com as finanças públicas sejam importantes, não podem
provocar desespero e muito menos servir para amparar visões inocentes
de que poderemos estimular o aumento dos investimentos simplesmente
reduzindo o papel e atuação do BNDES.
Em suma, estamos, sim, em um momento de escolhas sobre o caminho a
seguir, frente às dificuldades de manter equilibrados o desenvolvimento
social e expansão das capacidades – infraestrutura, logística, serviços
públicos e capital humano. Para buscar alternativas, o embate de ideias é
importante; mas preocupa o debate econômico brasileiro atual.
Primeiramente, assusta o retorno das tesse da “beira do abismo” e da
“inevitabilidade da estagnação”, e a demanda por correções abruptas de
curso nas políticas macroeconômicas, sem que se indique como tais
mudanças afetam a trajetória de longo prazo do Brasil. Não parece
correto dizer que houve abandono do tripé macroeconômico. Por fim, a
rigidez que querem impor à administração do tripé contrasta fortemente
com a flexibilidade e liberdade em que, no mundo inteiro, as equipes
econômicas estão combatendo os efeitos da maior crise econômica mundial
desde 1929.
Em segundo lugar, não procede a insistência de tratar a trajetória recente da economia brasileira como um boom do
consumo, calcado em políticas creditícias exageradas e expansão
insustentável do rendimento do trabalho; ou um retorno do
nacional-desenvolvimentismo dos regimes militares, que se propunha uma
consolidação do “Brasil potência” através de políticas de transformação e
do setor industrial como centro da ação governamental. A mudança em
2003 foi, a nosso ver, mais profunda e complexa, no sentido de redefinir
o papel e o lugar das políticas de inclusão socioeconômica, que deixam
de ser vistas como “paliativos” e passam a ser o eixo das demais
politicas. Entendemos que o que tem ocorrido é, de fato, um processo de
desenvolvimento inclusivo, com amplas repercussões sobre a estrutura da
economia, mas também, e principalmente, com significativos avanços nos
planos social, econômico e da cidadania.
Por fim, não temos problema com alguns dos diagnósticos sobre os
temas estruturais - sobre a necessidade de ampliar os investimentos,
melhorar a infraestrutura e logística, solidificar a competitividade,
melhorar os serviços públicos. Mas somos céticos sobre as análises que
apontam para novos “choques" – codinome muitas vezes utilizado para
justificar reformas que reduziram ou atrasaram o progresso de direitos
sociais e promoveram o desmonte de instituições publicas e maior
desregulamentação. A tese de que esse seria o caminho já se demonstrou
equivocada diversas vezes e em diversos países. No Brasil, ela nos levou
a retardar, em distintos momentos, o processo de inclusão
socioeconômica, além de jamais ter contribuído para o crescimento do
investimento, do emprego e da renda. São ideias que se vestem de
modernidade, mas que em realidade quase sempre promovem o atraso e o
retrocesso.
domingo, 22 de setembro de 2013
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